Usei esta expressão há pouco para explicitar as reações do Pongo diante das visitas que chegavam à casa da minha avó.
Ele era um cão dócil,porém já havia demonstrado inúmeras vezes que tinha uma certa preferência por algumas pessoas. Meu pai era uma delas. Convivia pouco menos do que eu com o cachorro, mas era igualmente doido por ele. Aliás, doido, era uma qualidade que se encaixava perfeitamente em meu pai quando se tratava de cães.
Quando solteiro, sua caminhada pela Avenida Maracanã, na Tijuca, quase sempre culminava com um salvamento de algum canino. Às vezes abandonado ainda filhote, outras vezes ferido ou doente. O resultado destes salvamentos é que a casa da minha avó virou uma espécie de mini-canil,com um séquito de sete "viralatésimos". Uma delas era tão esquisita...que colocaram-lhe o nome de Biruta. Bonitão,Mulatinha,Lorde,Princesa...estes são os que me lembro.Todos devidamente batizados com nomes chiquérrimos...
Quando nasci os sete já estavm bem grandinhos. Minha mãe diz que quase não me levava na casa da minha avó, por medo dos cachorros. O curioso é que tenho a nítida impressão de, ainda bebê, estar no colo do meu pai e ele abaixar-se com cuidado, escondido de todos, para que aqueles habitantes da casa conhecessem sua mais nova "aquisição":EU.
Talvez venha daí minha predileção por cachorros e a predileção deles pelo meu pai.
Pongo era apenas mais um de seus fãs...
E põe fã nisso.
Sua chegada era sempre precedida por sonoros latidos (Não. Ele não era mudo).
Bastava que meu pai se escondesse de seu ângulo de visão para que Pongo atento subisse no murinho da varanda,tentando alcançá-lo com o olhar e com ganidos sofridos de saudade.
Eu sentia um certo ciuminho,mas era meu pai quem pagava as despesas com o cachorro...então...concluí que aquele carinho seria uma espécie de gratidão...me consolava pensar assim.
Não eram todas as pessoas porém, que caíam nas boas graças do Pongo. Havia uma em particular que ele era obrigado a ver todos os dias e não a via com bons olhos.
Meu tio morava em frente à minha avó e todos os dias passava na casa dela para vê-la. A verdade é que ele não era lá muito chegado a cães (hj ele tem um poodle e é louco por ele). O Pongo poderia até perdoar este deslize de caráter, mas não gostava nem um pouco quando ele falava alto,discutindo com a minha avó por qualquer coisinha. Falava alto????Ele ouvia???Não...mas percebia pela postura corporal provavelmente, que a coisa não estava lá muito amistosa. Lógico que ele não gostava. Sua reação era a de latir e reclamar com aquele invasor que aborrecia sua vovó querida. Como não adiantasse, em outras vezes começou a se aproximar perigosamente daquelas canelas...foram algumas investidas, só para ameaçãr. Meu tio, já preocupado, começou a dizer que aquele cachorro era perigoso. Lembro como se fosse hoje: _Mamãe.Vocês têm que dar um jeito nesse cachorro.Qualquer dia ele morde alguém!
Quem? Pongo??Jamais...ele só não queria ver minha avó aborrecida. Ora, se ela queria comer uns docinhos escondido e era diabética, qual o problema?Mais doente ela poderia ficar com aquela discussão...devia ser assim que ele pensava.
Como suas ameaças de pegar meu tio pelas canelas começaram a acontecer mesmo quando não havia discussão, ele passou a ficar preso durante as visitas dele. Latindo, naturalmente...
Depois de muitas broncas pelas tentativas de ataque, Pongo subitamente mudou de estratégia.Deve ter tido contato com o livro "A arte da guerra" no mínimo.
Num sábado, eu estava presente, começou mais uma das briguinhas sem sentido do meu tio com minha avó. Deixei Pongo solto porque ele me obedecia e logo fui avisando: Nããããããoooooooo...
Para espanto de todos,ele sentou e ficou olhando para os dois. Meu tio sentindo-se à vontade começou a falar, gesticulando muito. De repente, Pongo se levantou devagar, dirigiu-se a ele e, calmamente, levantou a pata e despejou o maior xixi que eu já tinha visto!!
Era impossível não cair na gargalhada. Mais enraivecido ficava meu tio, encharcado de xixi, pronto(?)para o trabalho...Foi risada geral...minha avó, que era dona da gargalhada mais engraçada e sonora que eu já vi, teve que se sentar pra não cair. Meu tio saiu esbravejando pra trocar de roupa e o Pongo...bom, o Pongo foi se deitar aliviado junto ao portão, na varanda. Afinal, havia encontrado um jeito de terminar aquelas discussões irritantes.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Finalmente um cão...
Surdez não seria o problema que me afastaria daquele maravilhoso exemplar canino. O Pongo era perfeito! Suas manchas eram bem distribuídas, a carinha branquinha com as orelhas pretas e tinha nos olhos seu charme mais precioso: delineados de preto pareciam estar "maquiados" com lápis "Kajal".
Aquele bichinho desengonçado que dava mostras de quão grande seria, corria pela casa toda alucinado para meu desespero e da minha irmã. Fazia com que subíssemos no sofá com medo de suas mordiscadas...e dali pulássemos para as poltronas...e para as cadeiras,e...havia momentos em que parecíamos estar praticando uma espécie de "arvorismo" pela casa...
Em pouquíssimos dias porém,ele começou a alcançar com certa dificuldade os móveis citados.Mais alguns e ele já subia com um leve pulo e nós...bom...era praticamente impossível convencer a vovó que precisávamos trepar no seu guarda-roupa ou na sua cômoda...portanto só nos restou a aproximação hesitante que logo depois se transformaria em amor pleno e convivência pacífica.
Nesta época eu ainda estudava e morava em Copacabana e minha avó morava (com o Pongo) na Tijuca.Os dias da semana se arrastavam mais do que o necessário na minha concepção.O momento de "pegar" o ônibus 416 às sextas-feiras era o clímax da semana. Até domingo ànoite eu poderia conviver com o meu cachorrin...rrão!!!!
Pongo tinha crescido bastante e a convivência dele com minha avó não poderia ser mais benéfica para os dois.Minha avó usava aparelho para surdez, o que já fazia dela uma deficiente auditiva.Pongo por sua vez era surdo como uma porta...mas havia desenvolvido um faro capaz de lhe dizer quem havia chegado no portão com a porta fechada e dali sua reação ser de alegria pura ou de rejeição. Os dois se entendiam às mil maravilhas e isso não podia nos passar despercebido.Bastava minha avó fazer um gesto com a mão diante da boca indicando o ato de comer e lá ia o Pongo,desembestado para a cozinha atrás da vasilha de comida.Pouco depois estávamos eu e minha irmã fazendo o mesmo gesto só pra vê-lo correr para a cozinha. O problema é que nada havia na vasilha. A sua reação depois de umas cinco idas inúteis à cozinha é que nos deu uma idéia de quanto esperto ele era...Parou na frente de duas bobocas que insistiam em fazê-lo de bobo e apenas deu UMA rosnada, sentado e olhando fixo para nós. Depois disso continuamos a testá-lo fazendo o gesto,mas sempre verificando antes a existência da comida na vasilha.
Aquele bichinho desengonçado que dava mostras de quão grande seria, corria pela casa toda alucinado para meu desespero e da minha irmã. Fazia com que subíssemos no sofá com medo de suas mordiscadas...e dali pulássemos para as poltronas...e para as cadeiras,e...havia momentos em que parecíamos estar praticando uma espécie de "arvorismo" pela casa...
Em pouquíssimos dias porém,ele começou a alcançar com certa dificuldade os móveis citados.Mais alguns e ele já subia com um leve pulo e nós...bom...era praticamente impossível convencer a vovó que precisávamos trepar no seu guarda-roupa ou na sua cômoda...portanto só nos restou a aproximação hesitante que logo depois se transformaria em amor pleno e convivência pacífica.
Nesta época eu ainda estudava e morava em Copacabana e minha avó morava (com o Pongo) na Tijuca.Os dias da semana se arrastavam mais do que o necessário na minha concepção.O momento de "pegar" o ônibus 416 às sextas-feiras era o clímax da semana. Até domingo ànoite eu poderia conviver com o meu cachorrin...rrão!!!!
Pongo tinha crescido bastante e a convivência dele com minha avó não poderia ser mais benéfica para os dois.Minha avó usava aparelho para surdez, o que já fazia dela uma deficiente auditiva.Pongo por sua vez era surdo como uma porta...mas havia desenvolvido um faro capaz de lhe dizer quem havia chegado no portão com a porta fechada e dali sua reação ser de alegria pura ou de rejeição. Os dois se entendiam às mil maravilhas e isso não podia nos passar despercebido.Bastava minha avó fazer um gesto com a mão diante da boca indicando o ato de comer e lá ia o Pongo,desembestado para a cozinha atrás da vasilha de comida.Pouco depois estávamos eu e minha irmã fazendo o mesmo gesto só pra vê-lo correr para a cozinha. O problema é que nada havia na vasilha. A sua reação depois de umas cinco idas inúteis à cozinha é que nos deu uma idéia de quanto esperto ele era...Parou na frente de duas bobocas que insistiam em fazê-lo de bobo e apenas deu UMA rosnada, sentado e olhando fixo para nós. Depois disso continuamos a testá-lo fazendo o gesto,mas sempre verificando antes a existência da comida na vasilha.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Nova tentativa...
Diante de tanta tristeza, a família começou a achar que sairia mais barato me dar outro cão do que me encaminhar para uma terapia, coisa que era muiiiito mais cara naquela época, além de deixar a pessoa meio estigmatizada...imagine como as coisas mudaram, hoje o cara que NÃO faz é que está por fora...
Enfim...lá estavam todos à procura de um novo cão...menos eu.
Eu ainda nutria aquele estranho sentimento dúbio da primeira noite ao lado da Pituca. Me afligia a idéia de passar sozinha outra noite daquelas, mas desistir me fazia parecer fraca e isso era coisa que eu não passaria recibo: fraqueza.
Eis que chega uma notícia. Uma conhecida da minha mãe doaria um cão dálmata para mim. Como assim? Me davam um presente desses só pelos meus belos olhos?
Bom... a história não era bem essa. A dona do canil vendia os filhotes por preços bem "salgados", mas aquele filhote especificamente não valia nada e nem poderia ter o tal pedigree.
Ele nascera surdo.
(Seria também mudo e consequentemente a primeira noite não seria tão assustadora?)
Era o sucesso do momento o filme da Disney "Os 101 Dálmatas", bem antes da Glenn Close.
É lógico que seu nome seria PONGO!
Enfim...lá estavam todos à procura de um novo cão...menos eu.
Eu ainda nutria aquele estranho sentimento dúbio da primeira noite ao lado da Pituca. Me afligia a idéia de passar sozinha outra noite daquelas, mas desistir me fazia parecer fraca e isso era coisa que eu não passaria recibo: fraqueza.
Eis que chega uma notícia. Uma conhecida da minha mãe doaria um cão dálmata para mim. Como assim? Me davam um presente desses só pelos meus belos olhos?
Bom... a história não era bem essa. A dona do canil vendia os filhotes por preços bem "salgados", mas aquele filhote especificamente não valia nada e nem poderia ter o tal pedigree.
Ele nascera surdo.
(Seria também mudo e consequentemente a primeira noite não seria tão assustadora?)
Era o sucesso do momento o filme da Disney "Os 101 Dálmatas", bem antes da Glenn Close.
É lógico que seu nome seria PONGO!
Como tudo começa sempre...
É quase sempre assim...todo caso canino começa com uma vontade mal resolvida na infância que você carrega no subconsciente até o momento em que aquilo volta a incomodar ao encontrar outra criança mal resolvida (mesmo que esta criança já passe longe da infância).
Não é de hoje que a vontade de ter um cachorro vive no meu coração e no meu pensamento.
Foram muitas noites chorando na infância até compreender (?) que não podia ter cachorro no prédio onde eu morava em Copacabana. Mas qual...logo depois a gente lembra que existe avó e que uma das muitas atribuições das avós é fazer as vontades dos netos.
Ganhei enfim, sob a bênção da minha avó, uma fêmea de Fox Paulistinha...Pituca...
Passei uma noite inteirinha sem dormir e na manhã seguinte, minha disposição de ter um amiguinho de 4 patas já não era mais a mesma.
Eu havia passado a noite toda tentando fazer aquela coisinha compreender que quando a gente apagava as luzes da casa, era pra fechar os olhos e dormir.Mas que nada...ela preferia chorar, ganir, desesperada pra sair da caixinha de papelão ao lado da minha cama...eu, mais desesperada ainda, perdi a conta das vezes em que a peguei no colo e olhei para o relógio da cabeceira esperançosa de que a manhã estivesse chegando.Fora os cocôs e xixis que pareciam brotar daquela fonte inesgotável de gemidos.Mas a manhã chegou e com ela a vontade de mostrar a minha nova aquisição como um brinquedo novo que a gente exibe no dia seguinte ao Natal. Todos os meninos e meninas da rua da minha avó vieram ver e brincar com a Pituca.Era uma festa e eu era a "dona"!!!
Foram apenas dois dias de alegria ,conte-se apenas uma noite de desespero. Antes que anoitecesse novamente a Pituca começou a vomitar e ter uns ataques estranhos.Eu ainda era criança mas deu pra perceber que aquilo não era normal.Liguei pro meu pai e minha mãe e eles vieram rápido para levá-la ao veterinário de onde nunca mais voltou.
Diagnóstico: cinomose.
Provavelmente ela já estava com a doença quando me deram, mas era impossível não chorar lágrimas dolorosas por aquela cadelinha que eu mal conseguira festejar. E a culpa dos sentimentos contraditórios daquela primeira (e única) noite? Era um segredo só meu ,que eu quase desistira da idéia de ter um cachorro em prol de algumas horas de sono...mas era um segredo que me pesava o coração de criança...E assim a dor era ainda maior...
Não é de hoje que a vontade de ter um cachorro vive no meu coração e no meu pensamento.
Foram muitas noites chorando na infância até compreender (?) que não podia ter cachorro no prédio onde eu morava em Copacabana. Mas qual...logo depois a gente lembra que existe avó e que uma das muitas atribuições das avós é fazer as vontades dos netos.
Ganhei enfim, sob a bênção da minha avó, uma fêmea de Fox Paulistinha...Pituca...
Passei uma noite inteirinha sem dormir e na manhã seguinte, minha disposição de ter um amiguinho de 4 patas já não era mais a mesma.
Eu havia passado a noite toda tentando fazer aquela coisinha compreender que quando a gente apagava as luzes da casa, era pra fechar os olhos e dormir.Mas que nada...ela preferia chorar, ganir, desesperada pra sair da caixinha de papelão ao lado da minha cama...eu, mais desesperada ainda, perdi a conta das vezes em que a peguei no colo e olhei para o relógio da cabeceira esperançosa de que a manhã estivesse chegando.Fora os cocôs e xixis que pareciam brotar daquela fonte inesgotável de gemidos.Mas a manhã chegou e com ela a vontade de mostrar a minha nova aquisição como um brinquedo novo que a gente exibe no dia seguinte ao Natal. Todos os meninos e meninas da rua da minha avó vieram ver e brincar com a Pituca.Era uma festa e eu era a "dona"!!!
Foram apenas dois dias de alegria ,conte-se apenas uma noite de desespero. Antes que anoitecesse novamente a Pituca começou a vomitar e ter uns ataques estranhos.Eu ainda era criança mas deu pra perceber que aquilo não era normal.Liguei pro meu pai e minha mãe e eles vieram rápido para levá-la ao veterinário de onde nunca mais voltou.
Diagnóstico: cinomose.
Provavelmente ela já estava com a doença quando me deram, mas era impossível não chorar lágrimas dolorosas por aquela cadelinha que eu mal conseguira festejar. E a culpa dos sentimentos contraditórios daquela primeira (e única) noite? Era um segredo só meu ,que eu quase desistira da idéia de ter um cachorro em prol de algumas horas de sono...mas era um segredo que me pesava o coração de criança...E assim a dor era ainda maior...
Assinar:
Comentários (Atom)