sexta-feira, 20 de junho de 2008

Pura alegria ou rejeição...

Usei esta expressão há pouco para explicitar as reações do Pongo diante das visitas que chegavam à casa da minha avó.
Ele era um cão dócil,porém já havia demonstrado inúmeras vezes que tinha uma certa preferência por algumas pessoas. Meu pai era uma delas. Convivia pouco menos do que eu com o cachorro, mas era igualmente doido por ele. Aliás, doido, era uma qualidade que se encaixava perfeitamente em meu pai quando se tratava de cães.
Quando solteiro, sua caminhada pela Avenida Maracanã, na Tijuca, quase sempre culminava com um salvamento de algum canino. Às vezes abandonado ainda filhote, outras vezes ferido ou doente. O resultado destes salvamentos é que a casa da minha avó virou uma espécie de mini-canil,com um séquito de sete "viralatésimos". Uma delas era tão esquisita...que colocaram-lhe o nome de Biruta. Bonitão,Mulatinha,Lorde,Princesa...estes são os que me lembro.Todos devidamente batizados com nomes chiquérrimos...
Quando nasci os sete já estavm bem grandinhos. Minha mãe diz que quase não me levava na casa da minha avó, por medo dos cachorros. O curioso é que tenho a nítida impressão de, ainda bebê, estar no colo do meu pai e ele abaixar-se com cuidado, escondido de todos, para que aqueles habitantes da casa conhecessem sua mais nova "aquisição":EU.
Talvez venha daí minha predileção por cachorros e a predileção deles pelo meu pai.
Pongo era apenas mais um de seus fãs...
E põe fã nisso.
Sua chegada era sempre precedida por sonoros latidos (Não. Ele não era mudo).
Bastava que meu pai se escondesse de seu ângulo de visão para que Pongo atento subisse no murinho da varanda,tentando alcançá-lo com o olhar e com ganidos sofridos de saudade.
Eu sentia um certo ciuminho,mas era meu pai quem pagava as despesas com o cachorro...então...concluí que aquele carinho seria uma espécie de gratidão...me consolava pensar assim.
Não eram todas as pessoas porém, que caíam nas boas graças do Pongo. Havia uma em particular que ele era obrigado a ver todos os dias e não a via com bons olhos.
Meu tio morava em frente à minha avó e todos os dias passava na casa dela para vê-la. A verdade é que ele não era lá muito chegado a cães (hj ele tem um poodle e é louco por ele). O Pongo poderia até perdoar este deslize de caráter, mas não gostava nem um pouco quando ele falava alto,discutindo com a minha avó por qualquer coisinha. Falava alto????Ele ouvia???Não...mas percebia pela postura corporal provavelmente, que a coisa não estava lá muito amistosa. Lógico que ele não gostava. Sua reação era a de latir e reclamar com aquele invasor que aborrecia sua vovó querida. Como não adiantasse, em outras vezes começou a se aproximar perigosamente daquelas canelas...foram algumas investidas, só para ameaçãr. Meu tio, já preocupado, começou a dizer que aquele cachorro era perigoso. Lembro como se fosse hoje: _Mamãe.Vocês têm que dar um jeito nesse cachorro.Qualquer dia ele morde alguém!
Quem? Pongo??Jamais...ele só não queria ver minha avó aborrecida. Ora, se ela queria comer uns docinhos escondido e era diabética, qual o problema?Mais doente ela poderia ficar com aquela discussão...devia ser assim que ele pensava.
Como suas ameaças de pegar meu tio pelas canelas começaram a acontecer mesmo quando não havia discussão, ele passou a ficar preso durante as visitas dele. Latindo, naturalmente...
Depois de muitas broncas pelas tentativas de ataque, Pongo subitamente mudou de estratégia.Deve ter tido contato com o livro "A arte da guerra" no mínimo.
Num sábado, eu estava presente, começou mais uma das briguinhas sem sentido do meu tio com minha avó. Deixei Pongo solto porque ele me obedecia e logo fui avisando: Nããããããoooooooo...
Para espanto de todos,ele sentou e ficou olhando para os dois. Meu tio sentindo-se à vontade começou a falar, gesticulando muito. De repente, Pongo se levantou devagar, dirigiu-se a ele e, calmamente, levantou a pata e despejou o maior xixi que eu já tinha visto!!
Era impossível não cair na gargalhada. Mais enraivecido ficava meu tio, encharcado de xixi, pronto(?)para o trabalho...Foi risada geral...minha avó, que era dona da gargalhada mais engraçada e sonora que eu já vi, teve que se sentar pra não cair. Meu tio saiu esbravejando pra trocar de roupa e o Pongo...bom, o Pongo foi se deitar aliviado junto ao portão, na varanda. Afinal, havia encontrado um jeito de terminar aquelas discussões irritantes.

Finalmente um cão...

Surdez não seria o problema que me afastaria daquele maravilhoso exemplar canino. O Pongo era perfeito! Suas manchas eram bem distribuídas, a carinha branquinha com as orelhas pretas e tinha nos olhos seu charme mais precioso: delineados de preto pareciam estar "maquiados" com lápis "Kajal".
Aquele bichinho desengonçado que dava mostras de quão grande seria, corria pela casa toda alucinado para meu desespero e da minha irmã. Fazia com que subíssemos no sofá com medo de suas mordiscadas...e dali pulássemos para as poltronas...e para as cadeiras,e...havia momentos em que parecíamos estar praticando uma espécie de "arvorismo" pela casa...
Em pouquíssimos dias porém,ele começou a alcançar com certa dificuldade os móveis citados.Mais alguns e ele já subia com um leve pulo e nós...bom...era praticamente impossível convencer a vovó que precisávamos trepar no seu guarda-roupa ou na sua cômoda...portanto só nos restou a aproximação hesitante que logo depois se transformaria em amor pleno e convivência pacífica.
Nesta época eu ainda estudava e morava em Copacabana e minha avó morava (com o Pongo) na Tijuca.Os dias da semana se arrastavam mais do que o necessário na minha concepção.O momento de "pegar" o ônibus 416 às sextas-feiras era o clímax da semana. Até domingo ànoite eu poderia conviver com o meu cachorrin...rrão!!!!
Pongo tinha crescido bastante e a convivência dele com minha avó não poderia ser mais benéfica para os dois.Minha avó usava aparelho para surdez, o que já fazia dela uma deficiente auditiva.Pongo por sua vez era surdo como uma porta...mas havia desenvolvido um faro capaz de lhe dizer quem havia chegado no portão com a porta fechada e dali sua reação ser de alegria pura ou de rejeição. Os dois se entendiam às mil maravilhas e isso não podia nos passar despercebido.Bastava minha avó fazer um gesto com a mão diante da boca indicando o ato de comer e lá ia o Pongo,desembestado para a cozinha atrás da vasilha de comida.Pouco depois estávamos eu e minha irmã fazendo o mesmo gesto só pra vê-lo correr para a cozinha. O problema é que nada havia na vasilha. A sua reação depois de umas cinco idas inúteis à cozinha é que nos deu uma idéia de quanto esperto ele era...Parou na frente de duas bobocas que insistiam em fazê-lo de bobo e apenas deu UMA rosnada, sentado e olhando fixo para nós. Depois disso continuamos a testá-lo fazendo o gesto,mas sempre verificando antes a existência da comida na vasilha.